Editorial

Convocar A Cultura Como Antídoto Para A Pandemia

E, pronto, lá vamos nós novamente para mais uma crise, mais um tsunami que se abate sobre a sociedade portuguesa e, muito em particular, sobre o mundo da Cultura. Uma pandemia que marcará, a nível planetário, e de uma forma ainda não totalmente perceptível, a forma como vivemos, consumimos, interagimos e também como acedemos aos bens culturais. Um tempo de mudança vertiginosa onde a Covid 19 tem funcionado como um acelerador da história, particularmente a atomização exponencial da sociedade. Vai ser difícil sair do sofá, retirar os cidadãos dos conteúdos digitais e do afunilamento mental que significam as redes sociais, um mundo que é apenas uma representação do mundo, em constante fuga para a frente.

As artes ao vivo, que enfrentaram este choque como um camião colidindo toda a velocidade contra uma parede, ainda não se refizeram do primeiro impacto que deixou a nu toda a sua vulnerabilidade e precariedade laboral. E, no entanto, após a emergência sanitária, nenhum sector da sociedade será mais necessário do que este, que convoca o encontro, a coesão social, o pensamento crítico e um verdadeiro desconfinamento mental. Se queremos reconstruir um futuro diferente sobre as ruínas da pandemia, e uma sociedade mais justa, equitativa e democrática, mas também mais próspera porque mais qualificada, a Cultura e em particular os teatros, serão convocados como pontos de encontro, os últimos rituais do séc. XXI. Não como templos de consumo acrítico ou estádios em movimento inexorável para o esvaziamento mental, mas como pilares de construção de novos futuros, onde o conhecimento andará de mão dada com a criatividade e, importantíssimo, a ética e os valores. Sim, hoje, o lugar da arte não se aparta da reflexão sobre os valores e os paradigmas da mudança onde, por exemplo, as alterações climáticas e o desmontar do egoísmo permeiam essa mesma mudança.

Provavelmente iremos fazer muito do que antes fazíamos mas com outra reflexão e um impacto mais construtivo. Muito pode mudar para melhor ou para pior, e isso depende muito de nós, do nosso activismo e do debate que conseguirmos instalar na sociedade. Falar das coisas já é agir e constitui o primeiro passo. Convocar as artes e a cultura será essencial. Os populismos espreitam, e tal como na pandemia de 1918 nos escombros da Primeira Guerra que empobreceu o planeta, temos que estar atentos às distopias da história que esperam a primeira oportunidade para se revelarem. O melhor antídoto é uma população mais culta, mais instruída e com mais hábitos democráticos.

Tenhamos a coragem de questionar. Isso implica uma mudança estrutural dos nossos modos de vida, da forma como nos vemos em sociedade, da nossa economia e padrões de consumo, da nossa relação com a natureza, da forma como nos alimentamos, como educamos os nossos jovens e de como exercemos a democracia. É urgente sair de um sistema piramidal com poucos no topo e uma enorme pobreza na base, para um sistema circular, humanizado e equitativo.

O que nos é exigido é uma refundação e uma reinvenção da nossa cultura relacional com o outro e com o planeta. Sair de uma lógica de combate e competição para uma sociedade alicerçada na generosidade e na cooperação.

A Cultura e a Arte em particular, com a sua enorme capacidade de criarem novas narrativas e descontinuidades, despoletando reflexões e especulações improváveis do intelecto, devem abraçar este desígnio de mudança e podem ter um papel transformador importantíssimo. A par da Ciência, a Arte é uma poderosa ferramenta de descodificação do futuro capaz de traduzir o espírito dos tempos, falar do indizível, potenciar o colectivo e contribuir com novas narrativas para a humanidade.

É por isso que um país como o nosso, de pequenas dimensões, onde a Cultura nunca fez parte do discurso politico, não terá futuro no século XXI se não empreender essa mudança. A incompreensão disto é um drama com décadas na nossa democracia e que tem persistido em ficar. Num momento de crise é essencial convocar a esperança e voltar a acreditar nesse futuro, exigir políticas culturais visionárias e vibrantes que estabeleçam metas ambiciosas e mobilizem para transformação.

Sem um pensamento crítico e criativo onde, a par da Educação, a Cultura é um pilar insubstituível, nunca teremos futuro.