Editorial

Quando, há quase 20 anos, iniciámos o Espaço do Tempo, com a energia própria da aventura que apaga quaisquer dúvidas, nunca imaginávamos que, 20 anos mais tarde, iríamos abandonar o Convento da Saudação pois este estaria a ponto de ruir, a ponto de ameaçar a vida dos que diariamente o utilizavam. Não que fossemos incautos, nem poco avisados, simplesmente 20 anos são 20 anos de realizações e não deixa espaço para o desastre. O objectivo da reabilitação era uma causa maior e, perante os desafios, nós éramos imortais.

Em 2018, o convento, desde há muito em doença terminal, começou finalmente a ceder ao peso do tempo e da incúria do Estado que insistia em esquecê-lo. A queda da abóbada da sala Montemor, onde tantos artistas trabalharam, vinha colocar a nu o estado de declínio de um monumento que esforçadamente tentávamos suster. E fê-lo com uma violência difícil de descrever, despoletando finalmente a inevitabilidade de o recuperar. E fomos, finalmente, ouvidos pelo Ministério da Cultura. E por isso, desde o dia 14 de outubro de 2018, data que tal aconteceu, que todas as nossas energias se dirigiram não só para chamar a atenção para a urgência dessa recuperação, mas também para ir encontrando alternativas que permitissem ao Espaço do Tempo continuar a sua missão.

E lá fomos encontrando respostas, na nossa pequena mas enorme cidade de Montemor. Depois de 6 meses de boa memória, em que ocupámos transitoriamente antigo hospital de Santo André, situado no centro histórico de Montemor, um espaço único, com uma arquitetura iluminada e que nos permitiu manter todas as nossas residências e realizar a Plataforma Portuguesa de Artes Performativas nas melhores condições, tivemos mais uma vez que nos mudar para outro local. A nossa equipa foi incansável e resiliente. O apoio da autarquia foi essencial e o dos amigos também.

A partir desta temporada e durante os anos que irá demorar a obra de reabilitação do Convento da Saudação, estaremos nas antigas instalações da oficina Magina, (auspiciosa toponímia) um edifício industrial emblemático no centro da cidade. Neste espaço, recriaremos todas as condições de ninho criativo que sempre caracterizaram o Espaço do Tempo. Uma área de quase 1000 m² onde teremos 2 estúdios de grandes dimensões, ambos equipados com grid técnica motorizada, som, luz, video e wi-fi, uma inevitável zona de cozinha e estar, 16 quartos divididos por 4 zonas de residência, um espaço espaço exterior de cafetaria e um armazém técnico. Manteremos igualmente em funcionamento a nossa Blackbox, espaço informal que viu nascer algumas das mais extraordinárias obras da nossa criação contemporânea. É evidente que nada se pode comparar a um convento dominicano do século XVII com uma vista sobre o montado alentejano, mas sabendo que lá voltaremos, continuaremos a dedicar as nossas energias ao funcionamento e vitalidade deste novo espaço alternativo.

E porque o percurso de vida das instituições, particularmente das culturais, não é linear, tudo isto é apenas relativo. Inevitáveis dores de crescimento, parte de um questionamento constante e uma relação com a realidade. Uma realidade em constante mutação e, no nosso caso, com necessidades de criação, produção e experimentação que se alteram a cada dia. Entender estes sinais e tentar dar-lhes resposta é um desafio bem maior.

Rui Horta