Editorial

O Espaço do Tempo: 20 anos de residências, de luta pela recuperação do património e relação com a comunidade

DO LUGAR DA CRIAÇÃO AO LUGAR DA CONFIANÇA

Em Setembro de 2000, exactamente há 20 anos, juntamente com 2 amigos, Bruno Heyndericx e Eva Nunes, e a convite de Carlos Pinto de Sá, generoso autarca da altura, arregaçámos (literalmente) as mangas e iniciámos o Espaço do Tempo.  Na altura cozinhávamos, fazíamos camas, corríamos atrás de cobras, limpávamos quartos e estúdios e, nesse primeiro ano, até a fachada do Convento da Saudação caiámos… Seguiram-se anos de incontáveis residências, constante luta pela reabilitação do edifício e muitas aventuras criativas. Hoje, e após uma primeira fase de obras de salvaguarda do património, com verbas de emergência concedidas no final de 2018 pela Ministra da Cultura, estão  em pleno  as obras  no Convento  da Saudação.

Mas foi preciso que, nesse ano, uma abóbada desabasse num estúdio onde, até uns dias antes, ensaiara Jefta Van Dinter, um dos mais consagrados coreógrafos europeus, e um manifesto público fosse assinado por 150 dos mais conceituados intelectuais e figuras públicas do nosso país, bem como por diversas figuras chave da cultura europeia… A reabilitação total do edifício, liderada pela Câmara Municipal e, nesta segunda fase, maioritariamente financiada com fundos europeus (não o esqueçamos) depois de incontáveis reuniões do Espaço do Tempo e da Autarquia com sucessivos Ministros de Cultura e entidades oficiais, bem como uma incansável luta de anos para que o mesmo passasse para a posse da nossa cidade, permitirá que o Espaço do Tempo regresse ao seu espaço matricial e possa desenvolver no futuro um projecto artístico de excelência, mas igualmente um programa virado para a comunidade, tendo sempre como objectivo o desenvolvimento económico do território e uma programação onde todos se revejam. Na verdade, esta aventura não teria sido possível sem uma profunda relação com a nossa comunidade: não existem projectos artísticos sem o correspondente projecto sócio-cultural, sem uma relação fraterna e dedicada com o território, e isto significa implicar-se com a vida associativa, com todo o tecido escolar, com os agentes económicos e sobretudo com os cidadãos. Devido ao início das obras tivemos que abandonar o Convento da Saudação em 2019, mudando-nos duas vezes para espaços onde fizemos, claro, mais obras… E em 2020, como a todos, uma pandemia apanhou-nos. Resiliência, não parar, manter o nosso programa intacto, não havia opção. Pelo caminho ficaram alguns sonhos e alguns colaboradores, pessoas que nos deram o seu melhor e que nos ajudaram a construir o que somos. Para cada uma delas, o nosso reconhecimento.

Em 2011, ano em que a primeira crise nos atingiu como um rolo compressor não poupando qualquer sector da sociedade, os orçamentos para a Cultura foram brutalmente comprimidos, nomeadamente com um corte de 38%, do qual (como todo o meio da cultura) nos inteirámos pelos jornais… A nossa resposta na altura foi duplicar o número de residências, passando das cerca de 36 anuais que habitualmente tínhamos, para cerca de 70 que ainda hoje mantemos (o país saiu da crise em 2016, mas os artistas nunca…). Inúmeros criadores vieram para o Espaço do Tempo, quase apenas por uma refeição, um estúdio equipado e um sorriso da equipa. Mas era essencial não parar, contribuir para que toda uma geração emergente que na altura despontava, não fosse apagada do mapa.

E hoje cá vamos nós, novamente, pois perante mais esta crise só pode haver uma resposta: procurar apoios e alianças e não deixar cair aqueles que têm o direito – porque têm o talento – contribuindo para que se afirmem e não deixem de criar. Podemos todos empobrecer, mas não podemos deixar de sonhar. E quem lá estava para nos respaldar foi um novo e importantíssimo mecenas, a Fundação La Caixa,  e um parceiro de longa data, o Montado do Freixo do Meio, companheiro incontornável de tantos outros projectos e que irá acolher, no próximo ano, dezenas de residências. No admirável entorno rural do Freixo, iremos abrir um novo e mágico espaço de acolhimento, um lugar de criação partilhado com um projecto agro-ecológico de referência no nosso país. Nesta temporada teremos mais de 100 residências anuais, o que nos responsabiliza e nos remete para esse momento histórico da fundação do  Espaço do Tempo, há 20 anos atrás, acolhendo numa escala ainda  singela,  a  criação  portuguesa  e internacional.

Este tem sido um ano de incontáveis desafios, desde logo por estarmos desde há meses a testar todos os artistas que vêm para Montemor em residência, impondo um protocolo de estrita segurança, entre máscaras e um distanciamento físico nos antípodas do nosso ADN, mas que nos obrigamos a cumprir. Onde antes uma refeição era o ponto de encontro e local de todas as férteis contaminações humanas e artísticas, hoje os tabuleiros das refeições são deixados nas cozinhas de cada apartamento, num estéril e artificial ritual que cumprimos escrupulosamente. Esta é outra crise com contornos ainda pouco claros, onde as pontes que outrora construíamos são agora substituídas por estranhos muros sanitários. Mas seguimos em frente perante as circunstâncias da história. Outros 20 anos de aventuras criativas nos esperam. Tal só será possível se este local de criação for também um local de confiança.

Rui Horta