Editorial

Não teremos o charme de um claustro ancestral. Não teremos um olhar debruçado na paisagem alentejana. Nem mesmo uma janela que nos deixa suspensos cada vez que a abrimos. Então que fazer para mantermos o espírito do lugar?

Na voragem das mudanças de um tempo atribulado, decidimos pelo conforto, pelo excelência do laboratório e da nossa equipa de apoio.

Uma residência artística é hoje, cada vez mais, um exigente lugar de experimentação e produção. Num tempo em que a criação tem necessidades cada vez mais complexas, e menos tempo para se realizar, o desafio é acompanhar esse tempo, esses desígnios.

Ao longo dos anos fomos aprendendo a escolher projectos e a combinar equipas criativas, entre os mais e menos experientes, os de dentro e os de fora do país, os da dança com os do teatro, os daqui e os de acolá. Fomos percebendo o que precisavam, o que não queriam, o que comiam (enorme puzzle do nosso quotidiano) e sobretudo as condições de trabalho que procuravam. Pouco a pouco percebemos a complexidade do manual de utilização dos criadores bem como as suas idiossincrasias. E assim foi nascendo uma forma de acolher, proporcionando uma bolha criativa.

Por isso, na antiga oficina Magina, a nossa nova casa, entramos pela cozinha, pelos cheiro do caril ou da hortelã, e quem vemos em primeiro lugar é a Maria, a nossa cozinheira e, atrás da seguinte porta de vidro, alguém no escritório, pronto a ajudar. Há um pátio com oliveiras envasadas, mas também há alecrim, uma laranjeira e até um limoeiro.

Porque entre as coisas que nunca mudam, talvez que a mais importante seja o sentir-se em casa, mesmo que temporariamente.